Ao volante do Nissan GT-R, um dos carros mais potentes do mundo

Ao volante do Nissan GT-R, um dos carros mais potentes do mundo

Desde a infância, fui estimulado a idolatrar superesportivos de Ferrari, Lamborghini, Pagani e outros com motores enormes e preços astronômicos. Assim, foi quase um trauma descobrir que, na prática, todos eles são derrotados por um “modesto” Nissan. O bom é que nem precisei de psicólogo para superar isso: o tratamento foi na pista.

Estou num autódromo particular em Mogi Guaçu, interior de São Paulo. Diante de mim, em seu habitat ideal, o Nissan GT-R — monstro branco e atarracado que me encara. Parece saído de um episódio do Jaspion.

 

 

Apesar de existirem 76 unidades do GT-R no Brasil, esta é a única que foi trazida oficialmente pela marca japonesa (as outras vieram por importadores independentes). O objetivo era atrair olhares para o estande da Nissan no Salão de São Paulo, em novembro. Terminada a exposição, chegou a hora da ação.

Com pneus exclusivos fornecidos pela Dunlop, o GT-R não se sente ameaçado por nada. Nas pistas, este é um dos carros mais rápidos do mundo e detém alguns recordes no circuito de Nürburgring, na Alemanha. Com 20,8km de extensão e curvas desafiadoras, a pista é utilizada por fabricantes do mundo todo como campo de provas.

 

 

Esportivos que habitaram meus sonhos — como Ferrari Enzo, Porsche Carrera GT, Porsche 911 GT2 e BMW M3 CSL — têm seus tempos de volta em Nürburgring acima dos 7m18s cravados pelo Nissan GT-R sem modificações.

Para comparação, o recorde entre os “carros de rua” hoje é do Porsche 918 Spyder, que fez a volta em 6m57s. Mas se trata de um superesportivo híbrido de quase 1.000cv, que custa R$ 6 milhões...

 

 

Enquanto magnatas árabes escolhem o supercarro mais potente e exótico para gastar suas fortunas, quatro engenheiros saem de casa em direção à fábrica de Tochigi, no Japão, para passarem mais um dia montando artesanalmente os motores do GT-R. Eles são os takumi (mestre artesão, em japonês), responsáveis por dar vida ao V6 24v biturbo, de 3,8 litros, 552cv e 64kgfm.

O responsável por cada motor põe uma placa com seu nome no bloco. A Nobumitsu Gozu, minha reverência.

 

 

No mundo real, tração vence potência

Depois de passarem 60 minutos sendo amaciados numa bancada, os motores são instalados em um dos mil GT-R fabricados por mês.

A transmissão é de uma complexidade ímpar: o motor vai na frente, enquanto o câmbio automatizado de seis marchas e duas embreagens vai no eixo traseiro. Até aí, tudo bem: o Chevrolet Corvette atual também é assim.

 

 

Só que o GT-R tem tração integral e, assim, pecisa de dois cardãs! O primeiro, de fibra de carbono, leva a força do motor à caixa. O outro, de aço, sai lá de trás para tracionar eixo dianteiro. O equilibrio de massas do esportivo é quase perfeito: 53%-47%.

Sob demanda

A preferência é sempre do eixo traseiro. A tração dianteira entrará em ação esporadicamente, de acordo com a velocidade, a aceleração lateral, o movimento do volante e a aderência. É a mágica necessária para o GT-R se tornar um devorador de curvas.

Como resultado, este monstro de 1.750 quilos faz o 0 a 100km/h em 2,6 segundos, com máxima de 315km/h. E cobra “apenas” US$ 102 mil para isso.

 

 

Então você lembra que o Lamborghini Aventador com um V12 de 700cv faz o mesmo em 2,9 segundos, com máxima de 350km/h, e custa quatro vezes mais.

Enquanto fabricantes diminuem motores e aumentam a potência específica, o Nissan GT-R vai além e desbanca supercarros com um motor menor e menos potente — tudo graças ao gerenciamento da transmissão e dos controles eletrônicos de tração. É o expoente máximo do downsizing.

 

 

A fera quer atacar

Chega a hora de assumir o controle do Godzilla. Encaixado em seu banco, sinto-me na altura do chão. O console é repleto de comandos que interferem diretamente no comportamento do motor, da direção e até mesmo da suspensão, com amortecedores ajustáveis da Bilstein.

O modo mais poderoso de todos os comandos é o “R”. Na primeira volta, uso este ajuste apenas nos amortecedores. Com a carroceria mais firme e motor sempre presente, fica difícil controlar o ímpeto. Entro na curva mais quente do que deveria e faço um pequeno drift, como aconteceria nos games. Fui pego pelo Godzilla!

 

 

O perigo mora na sensação de segurança: a impressão é de que se pode entrar nas curvas cada vez mais rapidamente. O Nissan GT-R te vicia em aceleração bruta. Depois, cabe aos freios Brembo muito bem modulados desacelerar o monstro antes de atacar a próxima curva.

Na segunda volta, ponho todos os controles no modo “R”, mas com 98% da força mandada para o eixo traseiro. Com o motor mais presente e o controle de tração mais permissivo, o carro passa a estar mais solto.

Ronco sedutor

 

 

As sensações mais violentas vêm à tona quando o diferencial central também entra na sintonia “R”. Agora o GT-R se diverte transmitindo a sensação de estar sendo sugado para o centro da curva quando deveria estar sendo jogado para fora.

Nas retas, o borbulhar dos seis cilindros invade a cabine num ritmo perfeito (curiosamente, sem que se ouçam assobios das turbinas). O ronco grave do motor nos traga como uma sereia atrairia homens para o fundo do mar.

 

 

Voltar aos boxes e retornar à realidade é complicado, mas encaro o fim da brincadeira com um largo sorriso no rosto.


 
From: Globo
 
 

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